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Mamãe, sua foto faz o coração bater mais rápido e também bem devagarzinho!!!

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Desde que me tornei mãe e que os processos digitais se tornaram quase como uma segunda pele em nossas vidas, comecei a me ver mergulhada em um mundo de indagações para as quais eu não tinha resposta, mas que todo santo dia martelavam na minha cabeça:

 

– Por que as pessoas fazem tanta selfie?

– O que uma selfie diz, o que ela conta?

– Qual a real diferença entre as dezenas de foto que alguém faz (todas praticamente idênticas) para escolher uma para ser postada?

– O que as pessoas vão fazer com esse mundo de fotos daqui a pouco?

– Quando meus filhos crescerem eles definitivamente não terão tempo pra ver as centenas de milhares de fotos que foram tiradas deles (de quando ainda estavam na barriga até a adolescência, por exemplo) e aí?

– Qual o papel de um fotógrafo no meio desse cenário em que imagens e mais imagens desfilam à nossa frente?

– Por que um fotógrafo, se hoje o processo de captura de imagens está acessível a quase todo mundo?

 

E dessas perguntas, pode ter certeza, surgem mais inúmeros questionamentos….. E como eu estudei e pesquisei a respeito pra tentar acalmar essa minha angústia pessoal.

 

E, de repente, encontrei a resposta em dois lugares: um nos meus estudos de mestrado e o outro na percepção inocente e valiosa do meu filho de apenas 4 anos.

 

Dos meus estudos identifiquei que a publicidade sofre hoje exatamente com essa enxurrada de imagens. Não sei se vocês têm esses dados, mas diariamente cada pessoa vê milhares (sim, milhares) de mensagens publicitárias. Isso é coisa pra caramba. Mas aí, se você tiver que descrever agora, enquanto lê esse texto, um anúncio que tenha visto hoje, muito provavelmente você irá travar. Mas, poxa, você viu milhares… como não consegue descrever um… só um…?

 

Pois bem, para lidar com isso o desafio dos profissionais de comunicação têm sido ir além do conteúdo. Não basta dizer algo. É preciso diferenciar-se, estabelecer uma conexão mais forte com o seu público-avo. Isso pode ser feito por ações de guerrilha, uma estética diferenciada, um formato novo, uma experiência forte com a marca etc…

 

E nesse momento, eu percebo que o papel do fotógrafo, a meu ver, não deveria ser simplesmente o de gerar mais imagens, clicar, clicar, clicar e entregar um mundo de fotos ao cliente. Porque, no final das contas essas fotos teriam a mesma finalidade das selfies, das fotos que as pessoas postam em busca de curtidas (aprovação social), seriam mais uma na multidão.

 

E isso não é uma crítica às selfies, às fotos de comidas, fotos das compras que fez, dos lugares que se foi…. Essas imagens cumprem uma função social hoje. Elas redimensionam o processo de construção do eu (das nossas personas), evidenciam novos formatos de relacionamentos, dizem como nos vemos, como gostaríamos de ser vistos etc. Elas cumprem um papel fundamental. Mas elas têm uma condição efêmera! São feitas para durarem pouco, para serem rapidamente substituídas por outras. E isso não é um defeito ou uma crítica. É uma característica. E diz muito da nossa sociedade contemporânea.

 

E é aí que entra a genialidade e sensibilidade do meu caçula. Porque quando pergunto o que ele sente quando vê as fotos que eu faço ele diz: as suas fotos fazem o coração bater bem rápido e bem devagarzinho….

 

 

 

Não sei o quanto ele compreende da dimensão dessa frase, mas foi nesse momento que vi a melhor expressão para definir a peculiaridade do meu trabalho: fazer fotos que sensibilizem o coração, que façam as pessoas sentirem o coração batendo acelerado (porque despertaram um misto de sensações). E também fotos que te fazem se perder no tempo, quando o mundo parece parar e você volta a viver naquela imagem. E aí o coração bate devagarzinho nesse processo de reviver as lembranças.

 

Conscientemente eu já fazia isso. Essa sempre foi a característica da minha fotografia. Mas me faltavam as palavras que traduzissem isso com tanta clareza e sensibilidade.

 

E eu falo aqui da minha fotografia, do que eu acredito e busco. Não estou dizendo que esse é o modo certo e que outro seria errado. De forma alguma. Eu estou dizendo de onde me encontrei na fotografia, do que ela representa pra mim e do que eu ofereço como fruto do meu trabalho.

 

E isso não tem nada a ver com um dom! Sempre gostei de fotografias, mas nunca me imaginei fotógrafa… Isso tem a ver com o que um grande mestre da Publicidade João Anzanello Carrascoza disse: razão e sensibilidade.

 

A minha foto não surge naturalmente, com um simples clique. Ela envolve fortemente esses dois componentes: razão e sensibilidade.

 

Numa autocrítica posso dizer com absoluta certeza que minha sensibilidade é mais apurada. Seja pela minha personalidade, meus processos de autoconhecimento, minhas experiências particulares, a terapia. Não é à toa, por exemplo, que me encanta o terreno das famílias. Porque nesse campo eu transito com uma facilidade enorme. Eu entendo, entendo mesmo as mães, os bebês, os pais, avós, tios. Meu sentido é mais aguçado por conta do meu casamento , da maternidade e das minhas relações familiares que me trouxeram isso. Mas também porque estudo muito a esse respeito. Muito mesmo. Porque se eu quero extrair uma verdade daquela família eu preciso das minhas experiências, mas também de uma base teórica. E aí mergulho em diferentes áreas: psicologia, teatro, educação infantil, medicina, artes plásticas, música etc.

 

Nesse ponto já começa a racionalidade do meu processo. Claro que não vou e nem tenho a pretensão de me especializar em nenhuma dessas áreas. Mas elas me dão bases consistentes para que eu possa atuar com mais precisão. Buscando exatamente a produção de imagens que tragam essa experiência para a família: de fazer o coração bater mais rápido, mas também bem devagarzinho.

Mas, outro componente essencial nesse processo é a razão por trás dele. Não dá simplesmente para me deixar agir pela emoção. Sabe por quê? Porque é o conhecimento técnico que me habilita a conseguir esse resultado. Não basta uma câmera na mão e ter uma enorme sensibilidade a respeito das relações familiares. O resultado depende em muito da relação que construo com as pessoas, do conhecimento que tenho do meu equipamento, da maneira como conduzo o processo, da experiência proporcionada à família, do lugar escolhido, das roupas. Enquanto estou clicando tem um monte de coisas que preciso fazer (conscientemente). Preciso olhar o fundo, a luz, a composição, saber me aproximar, pensar a lente que vai me levar a determinado resultado etc.  Preciso saber editar e tratar as imagens, pensando nos meus objetivos. E nesse ponto, eu tenho um anjo, se assim posso dizer. Alguém que detém um conhecimento técnico absurdo e que o tempo todo me corrige, me ensina, me dá broncas, me coloca desafios, me faz fazer. Alguém que me proporciona um ensinamento diário e que traz transformações drásticas para minha fotografia. Alex Stoppa sem dúvida é o cara que me faz desenvolver minha racionalidade, minha técnica. E eu sempre digo que tenho que comer muito arroz com feijão para chegar no nível dele. Muito, muito, muito.

 

Sensibilidade e razão são os ingredientes que me conduzem na fotografia. E são eles que me permitem hoje (e ainda mais amanhã) fazer fotos que produzem esse efeito de fazer o coração bater mais rápido e bem devagarzinho!!!

 

E cada fotógrafo é de um jeito. Atua de uma forma. Constrói sua fotografia. Esse é meu jeito!

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